Relatório analítico · LC-QTOF-MS

Perfil metabólico de quatro variedades de tomate

Extração dos picos de espectrometria de massas de alta resolução em três faixas de m/z e identificação de compostos por MS/MS (fragmentação) no MZmine: dos ácidos orgânicos aos flavonoides, fenólicos, vitaminas e lipídios do fruto.

4
variedades de tomate
(Italiano, Tavares, ExtraPlus, TopSeed)
3
faixas de m/z analisadas
(<100 · 100–500 · 1000–1205)
1.482
picos catalogados
nas três faixas (neg + pos)
9
compostos confirmados
por MS/MS (+ lipídios e tentativos)

Cada variedade foi medida em ionização negativa e positiva, mais um branco (solvente/coluna) usado como controle. Em todas as faixas, o Tomate Tavares aparece com o sinal mais intenso. Abaixo, o detalhe da faixa < 100 (picos por amostra).

VariedadeCódigoPicos (neg)Picos (pos)
Tomate ItalianoITA113120
Tomate TavaresTAV120120
Tomate ExtraPlusTEP109120
Tomate TopSeedTOP95120

Método

Do arquivo bruto do equipamento à lista de compostos, por código

Um programa percorre o espectro completo de cada amostra, detecta os picos abaixo de m/z 100, refina a massa de cada um por centroide ponderado e subtrai o branco, isolando o sinal atribuível ao tomate.

Na faixa abaixo de m/z 100, cada pico recebe uma fórmula por massa exata: o programa enumera as composições químicas possíveis (C, H, N, O, P, S, Cl) dentro da tolerância do equipamento, filtra pelas regras de valência e cruza com uma base curada de metabólitos pequenos. O erro em ppm mede a confiança. Já nas faixas 100–500 e acima de 1000, entregamos a lista de picos por intensidade, mas sem nomear: nessas massas cada valor admite muitas fórmulas e isômeros, e a identificação por nome exige banco de dados (HMDB) ou MS/MS — é exatamente onde os softwares padrão (MZmine / MS-DIAL) entram.

Identificação por MS/MS (MZmine)

Compostos confirmados contra biblioteca de fragmentação

Os dados têm espectros de fragmentação (MS/MS). Processados no MZmine contra a biblioteca pública GNPS, os compostos abaixo tiveram o padrão de fragmentação batendo com o de referência — identificação forte, não é estimativa por massa. A naringenina (flavonoide antioxidante) foi confirmada nos dois modos de ionização.

CompostoO que ém/zModo
Ácido cítricoácido orgânico principal do tomate191,020neg
Naringeninaflavonoide antioxidante271,06 / 273,08neg+pos
Ácido cafeicoácido fenólico antioxidante179,034neg
Ácido p-cumáricoácido fenólico163,039neg
N-feruloiltiraminaamida fenólica (defesa da planta)314,138pos
Piridoxina (vitamina B6)vitamina170,080pos
Ácido 16-hidroxipalmíticomonômero de cutina (casca do fruto)271,228neg
Suberatoácido dicarboxílico173,081neg
PC(16:0/18:2)fosfolipídio de membrana758,573pos

Além desses, foi mapeado o perfil de lipídios de membrana (por massa exata): fosfatidilcolinas (PC/LPC), galactolipídios de cloroplasto (MGDG e DGDG) e triacilgliceróis (TG) — assinatura típica de tecido vegetal. O PC(34:2) por massa coincide com o PC(16:0/18:2) confirmado por MS/MS. Ftalatos detectados são contaminação de plástico de laboratório (não do tomate) e ficam listados à parte na planilha.

Níveis por variedade

Área do pico de cada composto confirmado

Quanto de cada composto há em cada variedade, pela área do pico (já sem o branco). Como as áreas variam muito entre compostos, o gráfico mostra cada composto normalizado (a variedade de maior sinal = 100%), pra comparar de forma justa quem tem mais de quê. O Tavares e o TopSeed lideram na maioria.

Nível relativo por composto (área do pico, 100% = variedade de maior sinal)
confirmados por MS/MS
!

Sobre "dosagem": este é um resultado semi-quantitativo. A área do pico mede o nível relativo (quanto a mais uma variedade tem em relação à outra), não a concentração absoluta. Para dosagem em mg por kg (número que vira laudo), é preciso rodar padrões de calibração de cada composto (curva de calibração) e, idealmente, um padrão interno. Isso é uma etapa adicional de laboratório, não sai destes dados. O que temos aqui já responde "qual tomate tem mais", com segurança para diferenças grandes.

Nitrato

Detectado, mas dentro da faixa do branco

O tomate tem nitrato (NO₃⁻, m/z 61,988) — isso é certeza biológica. Mas ao olhar a cromatografia (o cromatograma do íon extraído), não há um pico real: o sinal fica no nível do ruído de fundo (~130-170), igual nas amostras e nos brancos, e sem um tempo de retenção consistente (o ápice cai em tempos aleatórios em cada amostra, assinatura de ruído). O que parecia "sinal" era a soma de centenas de leituras de fundo. Motivo: nitrato quase não é retido nesta coluna (fase reversa) e ioniza mal, ficando abaixo do limiar de detecção como pico. Conclusão honesta: este método não mede nitrato; reprocessar os dados não muda isso.

Sinal bruto de nitrato (com os brancos para referência)
unidades arbitrárias · modo negativo
!

O nitrato é o marcador clássico de cultivo convencional × natural (adubação nitrogenada eleva o nitrato; há limite legal em hortaliças). Justamente por isso vale medi-lo pelo método certo: cromatografia iônica ou método espectrofotométrico dedicado, que dão mg/kg e comparam com o limite regulatório. Este dado untargeted serve para dizer que há nitrato, não quanto.

Faixa 1 m/z abaixo de 100 — ácidos orgânicos (identificados)

Comparação entre variedades

Qual tomate é mais rico em ácidos orgânicos?

Somando a intensidade dos dez principais ácidos orgânicos (modo negativo, já sem o branco), o Tomate Tavares lidera com folga: cerca de 1,9× o Italiano, o de menor sinal. Leitura semi-quantitativa (ver ressalvas).

Soma da intensidade dos ácidos orgânicos, por variedade
unidades arbitrárias · modo negativo

Perfil de ácidos orgânicos

Intensidade de cada ácido, nas quatro variedades

Detalhe composto a composto. O Tavares aparece mais alto na maioria, com destaque para piruvato, crotonato, acetato e oxalato. Alguns picos (angelato/tiglato, acrilato) são parecidos entre as variedades.

Intensidade líquida por composto
unidades arbitrárias · modo negativo

Compostos identificados

Anotação por massa exata (modo negativo)

Identificação forte = erro de massa abaixo de 5 ppm. Os íons de matriz (fosfato, cloreto, bicarbonato) vêm do preparo/coluna, não do fruto, e estão separados abaixo.

m/zFórmulaComposto (hipótese)ErroConfiança
?

O pico mais intenso de todo o modo negativo, em m/z 94,0298 (fórmula C₅H₄NO⁻, erro −0,4 ppm), ainda não foi identificado. A fórmula é sólida; o nome do composto exige uma etapa extra (MS/MS ou cruzamento com base externa). É o candidato número um para aprofundar, caso interesse.

Modo positivo

Principalmente fragmentos, menos específico

Na faixa abaixo de m/z 100, a ionização positiva é dominada por fragmentos genéricos (acílios, carbocátions) que aparecem em muitas moléculas e não apontam um composto único. Os sinais mais interpretáveis são os íons imônio, marcadores de aminoácidos. O Tavares novamente puxa as intensidades para cima.

m/zFórmulaAtribuiçãoErro
70.0660C₄H₈N⁺Imônio de prolina (marcador de aminoácido)+12.5
84.0815C₅H₁₀N⁺Imônio de lisina / leucina+8.6
43.0179C₂H₃O⁺Acílio (fragmento acetil)+1.4
55.0179C₃H₃O⁺Fragmento acílico+1.1
57.0335C₃H₅O⁺Acílio (fragmento)+0.2
69.0699C₅H₉⁺Carbocátion (fragmento)+0.3
71.0491C₄H₇O⁺Fragmento oxigenado−0.6
Faixa 2 m/z 100 a 500 — região central dos metabólitos

Faixa m/z 100–500

A região mais rica: 841 picos catalogados

Aqui está o grosso dos metabólitos do tomate: ácidos maiores, aminoácidos, açúcares e compostos fenólicos. Foram catalogados 488 picos no modo negativo e 353 no positivo. Nesta faixa os picos não foram nomeados (exige banco de dados ou MS/MS), mas alguns já batem com metabólitos conhecidos, como m/z 191,019 = citrato, ácido clássico do tomate, forte no Tavares.

Soma da intensidade de todos os picos, por variedade
u.a. · negativo + positivo

Os picos mais intensos da faixa (as duas polaridades juntas). Célula destacada = variedade de maior sinal na linha.

m/zModoItalianoTavaresExtraPlusTopSeed
Faixa 3 m/z acima de 1000 — lipídios e glicoalcaloides

Faixa m/z 1000–1205

Moléculas grandes: 449 picos catalogados

O equipamento coletou até cerca de m/z 1205, então "acima de 1000" cobre a faixa 1000–1205 — a região de lipídios e glicoalcaloides (o tomate é rico em tomatina, por exemplo). Foram catalogados 203 picos no negativo e 246 no positivo, também sem nomeação. Aqui o TopSeed empata com o Tavares no topo, e vários picos são específicos de uma ou outra variedade.

Soma da intensidade de todos os picos, por variedade
u.a. · negativo + positivo

Picos mais intensos da faixa (quase todos em modo positivo). Célula destacada = variedade de maior sinal na linha.

m/zModoItalianoTavaresExtraPlusTopSeed

Como ler estes resultados

Quatro ressalvas honestas

01 Nome é hipótese, fórmula é fato

Abaixo de m/z 100, boa parte do sinal são fragmentos de moléculas maiores gerados no próprio equipamento. A fórmula por massa exata é robusta; o nome do composto só se confirma com MS/MS.

02 Comparação semi-quantitativa

As intensidades não estão normalizadas entre corridas. Servem para diferenças grandes (perfil, presença/ausência), não para quantificação fina de "quanto a mais" um tomate tem.

03 Sem réplicas

Cada variedade foi medida uma vez. Isso impede teste estatístico de significância. Para um estudo formal, seriam necessárias réplicas biológicas.

04 Reprodutível e auditável

Todo o processo é código versionado: mesma entrada gera a mesma saída, com os parâmetros documentados. Pode ser conferido contra o software padrão da área (MS-DIAL / MZmine).

Próximos passos possíveis

Se o objetivo for aprofundar
  • Nomear os picos das faixas 100–500 e 1000–1205 cruzando com banco (HMDB / MassBank) ou MS/MS — é o maior salto de valor agora.
  • Identificar o pico dominante m/z 94,0298 da faixa < 100.
  • Normalizar as intensidades entre corridas para permitir comparação quantitativa entre as variedades.
  • Rodar réplicas para dar suporte estatístico às diferenças observadas.
  • Conferência cruzada no MS-DIAL/MZmine, caso o resultado precise de peso pericial/formal.